Galeria Tina Zappoli

A Ferro e Flor /With Fire and Flower

Apresentação
Obras/works
Créditos/Credits
Imprensa/ Press

Lupa, tempo e memória
Lou Borghetti

Pegar um microscópio composto e perceber que a sua gota de vinho é no fundo um mar vermelho, que a poeira da asa das borboletas é uma plumagem de pavão, o bolor um campo de flores e a areia uma porção de pedras preciosas.
A terra e os devaneios do Repouso
Gaston Bachelar, [La vie de Fixlein]

Fotografo como uma pintora. Percebo “pinturas” nas paredes, muros, madeiras de casas antigas, ferrugem, troncos de árvores e raízes. O detalhe está próximo e presente, vivo e colorido. Resgato e me aproprio destes fragmentos de cores, contrastes, texturas oxidadas, compostas e decompostas. A beleza está onde aparentemente não há beleza.

A ação do tempo é sutil, não se percebe, mas segue deixando marcas. São essas marcas, testemunhas do tempo em andamento, que busco captar. A alquimia do tempo na matéria original. Durante anos tenho fotografado o casco de um navio aportado no cais de Porto Alegre. O lugar é ermo, cemitério de navios. O navio, que leva o nome de “Bernardino Caballero”, já não serve às suas reais funções, está ali silencioso e imponente.

Uma pequena casinha de madeira, refúgio e lar de meus avós, está registrada em uma velha fotografia, encontrada em minha gaveta de guardados. Olhando-a me dou conta que já não é real. Porém, perpetua a imagem projetada, que, no entanto, decodifico pelos meus significados intrínsecos, subjetivos – arquétipos humanos. A casa existiu um dia, e foi fotografada com a intenção de registrar aquele momento, daquele espaço, naquelas condições.

São abstrações do nosso cotidiano: o mistério do tempo em ação. Sempre que estou capturando imagens coloridas e corroídas, percebo, além das formas e cores, a dimensão humana, a ação inexorável do tempo. Tanto faz estar o navio aqui ou em qualquer outro lugar, seu destino seria o mesmo, parte de um processo de finitude, envelhecimento e morte. Na memória depositamos a captura de um momento. Através dela deslocamos o tempo. Ali existe história, abandono, segredos e silêncio. A imagem é desconstruída e reconstruída infinitamente. O visível e a transcendência, o passado que se interpõe ao presente e projeta um outro futuro.

“A universalidade da arte é a universalidade do objeto, real e visível.” (Waldemar Cordeiro)

Loupe, time and memory
Lou Borghetti

Get a compound microscope and realize your wine drop is actually a red ocean, the butterfly powder is a peacock plumage, mold is a flower bed and sand is a score of precious stones.
Earth and Rest Daydream
Gaston Bachelar, [La vie de Fixlein]

I take pictures as I paint. I perceive “paintings” in the walls, in old houses woods, in the rust, in stems and roots. The details are close and present, colorful and alive. I rescue and borrow these color fragments, these contrasts, these oxidized textures, compounded and decompounded. Beauty is where apparently there is no beauty.
Action of time is subtle, we don’t realize it yet it continues leaving marks. These marks, witnesses of time, are what I try to capture: alchemy of time into original matter. For years I have photographed a ship’s hull docked at Porto Alegre pier. This place is desolate, a ship’s cemetery. The ship, whose name is “Bernardino Caballero”, does not perform her real functions any longer: She is just there, silent and imposing.
A little wood house, my grandparent’s home and refugee, is registered in an old photograph that I found in my memento drawer. Looking at it I realized it is not real anymore. Yet it perpetuates the projected image which I decode thru my own inherent, subjective meanings —human archetypes. The house existed some day and was photographed with the intention to register that space under those circumstances on that particular moment.
They are abstractions of our routine: mystery of time in action. Every time I am catching colorful and eroded images I realize human dimension beyond colors and forms, the unrelenting action of time. Whether the ship is here or somewhere else her destiny will be the same: to be a part of a process of finitude, a process of aging and death. In our memory we keep the catching of a moment. Thru this we move time. There is history, abandonment, secrets and silence. Image is forever deconstructed and constructed again: The visible and the transcendence, the past that permeates the present and projects another future.

“Universality of Art is Universality of the objet —real and visible.” (Waldemar Cordeiro)

A Ferro e Flor – Galeria Tina Zappoli
Tina Zappoli – Marinho Neto

 

A FERRO E FLOR
Lya Luft

As fotos de Lou Borghetti desta série A FERRO E FLOR são tão surpreendentes quanto suas pinturas.
Como seus quadros, contêm secretas insinuações que levam a descobertas sempre novas para quem se detém para realmente olhar.

A poucas pessoas ocorreria ligar dois materiais tão diversos e contraditórios quanto flores e ferro: as primeiras um símbolo de delicadeza, o segundo representante da matéria bruta.
Mas, com sua visão muito pessoal, que – como em todo verdadeiro artista – transcende o superficial e o óbvio – Lou Borghetti enxerga em ambos a surpresa, o segredo, o desabrochar das mutações que outros considerariam decrepitude, e a solidez da matéria que a muitos pareceria desinteressante.
Só uma arte especialmente sensível, uma visão muito particular, entre emocionada e dolorida, poderia ver a pungente ação do tempo sobre o ferro (em velhos cascos de navios abandonados, por exemplo), criando formas, cores, sugestões imperceptíveis para quem por ali passasse sem se deter.
Essa mesma visão percebe no efêmero das flores o peso, solidez e as feridas abertas no ferro corroído, matéria bordada, rasgada, sublimada pela mão implacável, mas também criadora do tempo.

Assim, ao olhar de Lou Borghetti tudo se move, fases se alternam como em nossa existência, e tudo nos manda recados se soubermos ver.

A passagem do tempo, que desde sempre me impressiona e com a qual desejo tanto aprender, não é decadência, mas processo; não é finitude, mas atravessando todas as fases possíveis, é permanência: e isso somos nós.

By Iron and Flower
Lya Luft

The photographs by Lou Borghetti of this series “By Iron and Flower” are as surprising as her paintings. They contain secret insinuations that lead to always new discoveries to those that actually stop to look at it.
Very few people would think of connecting two materials so different and contradictory as flowers and iron: the first, a symbol of delicacy; the second, raw matter representative.
Her absolutely personal point-of-view transcends the obvious and the superficial —as all truly artists do. Lou Borghetti sees the surprise, the secret, the blooming of mutations that others would consider decrepitude; the matter solidity that many would consider not interesting.
Just an especially sensible art, a very particular view —between emotive and painful— could see the pungent action of time on the iron (for instance on old ships’ hulls), creating forms, colors — imperceptible suggestions to those passing by without stopping.
This same vision sees on the flower fleeting the weight, solidity and the open wounds of the eroded iron —embroided, tore matter, sublimated by the merciless but time creating hand.
Thus, on Lou Borghetti view, everything moves; the phases alternate as in our own existence and everything send us messages —if we know how to see them.
Time passage —which always impressed me and of which I have always wanted to learn from—is not decadence but process; is not finitude but permanence (moving through all necessary phases). And we are all that.