O tempo fotografado

Acredito que fotografar seja sempre uma forma de apropriação e de aprendizado. Vivemos levando conosco registros de momentos e lugares, que consideramos particularmente significativos para nossa vida. De qualquer forma, alguns fotógrafos, e este é o caso de Elizethe, fotografam de maneira muito especial. Em suas fotos, realizadas de maneira meio lúdica, não encontramos figuras humanas, grandes espaços, paisagens, ou quaisquer dos assuntos considerados nobres pelos exegetas de plantão. Ao contrário, sua objetiva se dirige quase sempre para as superfícies desgastadas, as texturas e as cicatrizes que o tempo e os elementos produzem nestes pequenos pedaços de realidade fotografados. Seja em Porto Alegre, Tiradentes, Istambul, ou Hong Kong, Elizethe está permanentemente recolhendo fragmentos de um mundo, que praticamente só tem a ver com seu universo interior. A realidade funciona para ela apenas como matéria prima do seu fazer artístico. Assim, suas fotos estão muito mais próximas da tradição e da técnica da gravura e da aquarela, com suas transparências, suas sobreposições de cores e suas composições delicadas, do que do trabalho fotográfico meramente documental. Caudatária principalmente do abstracionismo lírico, pelo seu tratamento da cor e da composição, Elizethe consegue, talvez até de forma inconsciente, um belo e raro registro fotográfico da passagem do tempo, esta dimensão quase sempre intangível.

Marcos Magaldi

 

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