CASAS DE MORAR,
CADEIRAS DE MEDITAR
Lya Luft para Lou Borghetti

Escrever sobre artes plásticas é sempre difícil para quem não é entendido. Mas não escrevo sobre pintura, aqui escrevo sobre alma. Sobre a de Lou Borghetti, que toca a nossa nesta sua nova fase, como em todas as que conheci e admirei.

Algo de rasgado no desconstruído que se refaz, como a nossa vida. Algo de muito zen nas monotipias de casinhas que parecem ideogramas, e que dão vontade de abrigarmos ali a nossa alma. Algo de provocativo nas cadeiras, onde a alma vai repousar para sentir o mundo, e meditar.
Nada é acaso, nem a harmoniosa e ao mesmo tempo ambígua criação de Borghetti: somos esfacelados como suas colagens, porque só assim podemos nos refazer mais inteiros; convocados para dentro de nós, para nossa casa interior, onde o mistério (não importam rótulo nem nome) nos oferece eventualmente cadeiras como barcos, para que a gente possa soltar as amarras, despir os disfarces, e tornar-se mais gente através da arte.

Não creio que arte tenha “função”, mas tem “efeitos”: um deles, talvez o mais glorioso, há de ser promover a interiorização, portanto, a libertação de velhos enquadres e aprisionamentos. Para que se proceda um renascimento, na dolorosa, minuciosa ou estonteante reelaboração de nós mesmos, cada vez mais inteiros depois do despedaçamento da reflexão, cada vez mais humanos.

Borghetti tem, para mim, um dedo mágico para nos abrir essas portas.

Lya Luft
Porto Alegre, julho de 2005.

 

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