Nada é acaso, nem a harmoniosa e ao mesmo tempo ambígua criação de Borghetti: somos esfacelados como suas colagens, porque só assim podemos nos refazer mais inteiros; convocados para dentro de nós, para nossa casa interior, onde o mistério (não importam rótulo nem nome) nos oferece eventualmente cadeiras como barcos, para que a gente possa soltar as amarras, despir os disfarces, e tornar-se mais gente através da arte.

Não creio que a arte tenha “função”, mas tem “efeitos”: um deles, talvez o mais glorioso, há de ser promover a interiorização, portanto, a libertação de velhos enquadres e aprisionamentos. Para que se proceda um renascimento, na dolorosa, minuciosa ou estonteante reelaboração de nós
mesmos, cada vez mais inteiros depois do despedaçamento da reflexão, cada vez mais humanos.

Borghetti tem, para mim, um dedo mágico para nos abrir essas portas.

Lya Luft
Porto Alegre, julho de 2005.

 

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