LOU BORGHETTI - PINTURAS

É surpreendente comunicar-lhes que, em meio a tantas instalações e conceitos, ressurge alguém que ama. Que ama a pintura em sua forma mais singela e despretensiosa, elementar, espontânea. Sim, alguém ainda capaz de pegar em pincéis e, sobre a superfície do papel ou da tela, espalhar cores, criar tramas, construir texturas, inventar narrativas.

Há uma história que merece ser contada. Não é uma farsa, nem novela. Também não se trata de lírica invenção poética desmedida. A fala que se percebe e se ouve, que salta deste conjunto de diferentes estaturas e formatos, é a fala de gente igual a você. Você mesmo, aí, que está lendo este texto. Gente de carne e osso. Gente que sofre e ri. Que se encanta e desata. Que é artista por destino.

Arte (ou destino) não é coisa lá de se achar estranho. Arte não é coisa de gênio. Arte que vale a pena ser vista e vivida é para impregnar nosso cotidiano, invadir nossa casa, habitar o meu, o seu olhar. Há algo melhor para resolver este claro enigma da existência do que acrescentar beleza e não banalidade ao mundo? Se a função da vida é mais vida, Lou acrescenta pitadas, pinceladas, bocadas de tinta aos aromas e sabores de nossa contemplação.

No seu poema Os Sapos, lido na Semana de Arte Moderna de 22, Manuel Bandeira já desancava os parnasianos. Ele estava farto do lirismo comedido, da prosa do mercado, das artimanhas e invencionices dos textos críticos. Ele queria falar de coisas concretas: bons poemas, boas pinturas, boa música. O Brasil se inventava a si mesmo. Adentrávamos os anos 30 e produzíamos excelência na arquitetura, na literatura de caráter regionalista. As pessoas não eram produto da sociedade de espetáculo.

Volto ao passado, a uma época em que se criava sem fanfarronice e sem o olho gordo voltado à mídia. O artista tinha de se provar por seu talento. Por sua entrega. Por seu amor esclarecido a si mesmo e às coisas brasileiras, entranhadas em sua formação.

Lou exalta luzes que trazem bocadinhos do Brasil: memórias, cadeiras em que sentamos, flores que aspiramos, enevoamento que não ousamos dispersar. Tudo se embebe em olhar e tinta. Tudo se dissolve em gesto e corpo. A artista retira sua pele, sua roupa mais íntima e, nua, sem pudor de entrega, se envolve no linho da tela, no algodão ou celulose do papel.

Lou, assim, parece emergir da memória do tempo. [É bom que estejamos despidos de quaisquer sentimentos tolos ao entrarmos no MARGS.] Sua pintura é bruta. Real. Presente. Não há nenhum lirismo desmedido. Ela faz da arte de manchar, com cores, superfícies antes intactas de branco, uma marca. Ouvimos o farfalhar das pinceladas, o marulhar das tintas. Há matéria viva, úmida, impossível de secar pela ação do tempo. Lou parece habitar, mais que às margens do Guaíba, à margem do tempo. E, no entanto, por paradoxo, sua contemporaneidade é radical. Ela não faz concessões. Ela faz pintura.

Leonel Kaz
Editor, professor de cultura brasileira,PUC-RJ

 

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Pintura, acrílica sobre tela


Pintura, acrílica sobre tela


Pintura, acrílica sobre tela