Paisagens Verticais
ou Possíveis Paisagens

Eu escrevi uma partitura – mas só posso escutá-la quando executada pela alma e pelo espírito de outra pessoa.
Paul Valéry

A pintura de Lou Borghetti propõe ao público uma experiência a partir de um gênero pictórico que aparentemente havia encerrado o que tinha a dizer com os grandes mestres do passado. A artista nos proporciona uma experiência contemporânea da paisagem desconstruindo sua imagem primordial em elementos sintéticos, quase abstrações. Poderíamos mesmo dizer que são auto-paisagens ou paisagens de um interior tão amplo que olhar para elas é imergir num mundo de extensão impossível de ser apreendida.

Um aspecto relevante é a questão da profundidade e da superfície. A arte ocidental imita o mundo com o auxílio da perspectiva, que nos permite adentrar as imagens como se elas fossem reais. Lou Borghetti não adere incondicionalmente a este recurso intelectualizado. Sua pintura se estabelece na superfície da tela ocupando-a como um oriental a faria. Ao dispor sua imagem sobre o suporte ela não aspira à profundidade enganosa da perspectiva, preferindo que a paisagem se realize na superfície da tela.

As pinturas permitem que o olho do espectador passeie por formas econômicas e esquemáticas calcadas em desenhos infantis. Sobre o desenho das crianças é desnecessário enfatizar seu desembaraço, mas não devemos nos iludir: não há ingenuidade nestes desenhos assim como não há ingenuidade nas crianças quando elas projetam a aparência do mundo. Os desenhos infantis evidenciam as etapas do nosso crescimento e da nossa compreensão do mundo na sua essência e, talvez por isso mesmo, eles exerçam um fascínio tão grande em nós depois de adultos. O olhar infantil é rápido, certeiro, sem enganos.

Lou Borghetti efetua uma equação complexa na qual a tradição do gênero paisagem e o meio pintura se unem a formas migrantes de seus desenhos infantis. Tudo converge para uma obra solidamente construída, que oferece algo novo e profundamente instigante: capacidade de comunicação, grande presença física e diálogo marcante e pertinente, tanto com a produção pictórica quanto com questões estéticas contemporâneas. Sua pintura solidamente construída é uma partitura consciente e cuidadosamente escrita que nos permite executá-la com nossas almas e também com os nossos espíritos.

Paulo Gomes, artista plástico,
doutor em Artes Visuais – Poéticas Visuais e professor no UniRitter.

 

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Pintura, acrílica sobre tela


Pintura, acrílica sobre tela