ASSOCIACAO LIVRE
NA OBRA DE ELIZETHE BORGHETTI

Parece mar...

Parece mar a larga mancha cinza no terço maior inferior da tela. Surgiu de um gesto único, intenso e decidido, rasgado da esquerda para a direita. Não sabia a artista aonde ir. Depois foi sendo processada, sábia e lentamente, com a volúpia de quem goza todos os prazeres da técnica, de quem zomba deles, até parecer uma água densa, um leite plástico, quase sólido, sobre o qual foi apoiada a frágil escada em direção ao céu. E do primeiro plano, à direita desta escada, num outro gesto da criação surgiu a criança que, de costas para a tela, olha para o fundo desta, lá onde parece nascer uma cidade iluminada a anunciar a noite do futuro.

Mas não é densidade esta mancha, desde que, olhando para ela, um pouco mais acima, encontro outra, escura, que parece ser terra.

Esta sim é densa, é sólida. Sobre esta sim, poderia estar apoiada a escada infantil de pés puntiformes a desafiar a resistência da superfície do tempo. Uma escada lúdica, reduzida como se desejaria na vida tudo ser. E em verdade, olhando melhor, vêem-se muitas escadas mais neste breve espaço do horizonte do quadro que nos convida, em nome da artista, à associacão livre que, entretanto - lamentemos -, não é nossa, mas dela: uma casinha de madeira - Lou abomina casas de madeira ? ( talvez um incêndio... ) -, sem corpo, porque é transparente e escancarada. Não abriga, não acolhe e nem protege. Antes, afugenta e amedronta... Uma cadeira para descanso, desproporcional relativamente à própria casa que por sua vez é ainda menor que a pequena criança-gigante.

...Parece terra, sim, parece terra onde há indícios de outras casas sobre o horizonte, parecem lonas...quem sabe um circo que acabou de chegar à cidade, essas coisas que às crianças não fogem jamais, passagens que em nós são as únicas que restam como registros ou verdades.

Não dá bem para decifrar as manchas antigas como as de Tarquínia, apenas são nelas agora outras as figuras: uma menina, uma casinha vazia e uma cadeira, todas pintadas de uma cor primária.

O que habitava a mente de quem as desenhou há tanto ? O tempo, enfim, é outro, embora por nada possa mudar a razão atávica destes traços. As cores são quase as mesmas - as cores sempre foram as mesmas -, apenas os recursos são outros, e, a não ser para a artista, não importa a nós o que está aí nesta parte do quadro dividido em três campos horizontais cortados, dos quais o último parece ser o céu a que se deseja chegar. Parece céu esta última parte que se mistura à anterior, porque é de um claro intenso que devora a quem dele queira se aproximar, engole quem pensa adentrá-lo assim, sem menor licença, sem dizer a que veio, um céu claro, definido, róseo, mas - atenção ! -, enganoso. É preciso ter coragem ou ingenuidade para se chegar lá no fim do quadro onde esperam todas as armadilhas travestidas de doçuras. As escadas habitam toda a dimensão do quadro - vê-se agora -, unem as extremidades de cima e de baixo, ao menos numa sugestão, numa insinuação quase óbvia a quem deseja alcançar o topo. Mas nenhuma presunção é óbvia. Não é assim que o olhar de quem vê este quadro se dá o direito de pensar, de transgredir o ato da artista. O que pensaria ela ? Que reação teria ela quando se lhe tocassem restos diurnos que compuseram o sonho que quis ser eternizado nesta tela que somente muito mais tarde ela olhará, então sim, com atenção e detença, para compreender de vez o que foi feito de sua vida, o que lhe aconteceu durante a caminhada ? Vire-se o quadro, agora de cabeça para baixo. No segundo plano arde em chamas uma densa floresta escura, expelindo para cima a fumaça cinza volumosa do grande incêndio. No primeiro, sobre a água rósea, reflexos da queimada e algumas poucas árvores, apenas semelhantes a escadinhas que sobreviverão chamuscadas ao infeliz acidente. O fogo ainda arde com intensidade no centro do quadro onde predominam as chamas que antes eram criança, cadeira e casinha.

Parece um quadro esta peça a minha frente, mas não é um quadro. O que vejo, e o que minha vontade quer desvendar num inútil exercício de associação livre, são os componentes de uma longa trama secreta, que não é minha. Que sei que existe, mas que não posso conhecer. Que quer dizer algo, mas que não posso escutar. Un mistero chiuso in sè.

Parece mar, parece terra, parece céu...

Mas não é.

Paulo C. Amaral, novembro de 2006

 

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Pintura, acrílica sobre tela


Pintura, acrílica sobre tela


Pintura, acrílica sobre tela