Lupa, tempo e memória

08/08/2016 0 Por adminlou

“Pegar um microscópio composto e perceber que a sua gota de vinho é no fundo um mar vermelho, que a poeira da asa das borboletas é uma plumagem de pavão, o bolor um campo de flores e a areia uma porção de pedras preciosas. ”

A terra e os devaneios do Repouso, Gaston Bachelar, [La vie de Fixlein]

Fotografo como uma pintora. Percebo “pinturas” nas paredes, muros, madeiras de casas antigas, ferrugem, troncos de árvores e raízes. O detalhe está próximo e presente, vivo e colorido. Resgato e me aproprio destes fragmentos de cores, contrastes, texturas oxidadas, compostas e decompostas. A beleza está onde aparentemente não há beleza.

A ação do tempo é sutil, não se percebe, mas segue deixando marcas. São essas marcas, testemunhas do tempo em andamento, que busco captar. A alquimia do tempo na matéria original. Durante anos tenho fotografado o casco de um navio aportado no cais de Porto Alegre. O lugar é ermo, cemitério de navios. O navio, que leva o nome de Bernardino Caballero, já não serve às suas reais funções, está ali silencioso e imponente.

Uma pequena casinha de madeira, refúgio e lar de meus avós, está registrada em uma velha fotografia, encontrada em minha gaveta de guardados. Olhando-a me dou conta que já não é real. Porém, perpetua a imagem projetada, que, no entanto, decodifico pelos meus significados intrínsecos, subjetivos – arquétipos humanos. A casa existiu um dia, e foi fotografada com a intenção de registrar aquele momento, daquele espaço, naquelas condições.

São abstrações do nosso cotidiano: o mistério do tempo em ação. Sempre que estou capturando imagens coloridas e corroídas, percebo, além das formas e cores, a dimensão humana, a ação inexorável do tempo. Tanto faz estar o navio aqui ou em qualquer outro lugar, seu destino seria o mesmo, parte de um processo de finitude, envelhecimento e morte. Na memória depositamos a captura de um momento. Através dela deslocamos o tempo. Ali existe história, abandono, segredos e silêncio. A imagem é desconstruída e reconstruída infinitamente. O visível e a transcendência, o passado que se interpõe ao presente e projeta um outro futuro.

“A universalidade da arte é a universalidade do objeto, real e visível.” (Waldemar Cordeiro)

Lou Borghetti

Lou Borghetti, fotógrafa – Superfície ferrosas:

Fotografia

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