A convite de Donna, a artista contou sobre o dia a dia no estúdio:

Dou aulas de pintura, desenho, aquarela, técnicas mistas e teoria há exatos 28 anos.
Minha experiência é longa e muito fecunda. O que mais mobiliza as pessoas é: “quero fazer alguma coisa diferente quero me sentir criativa e produtiva”.

Durante muito tempo a predominância dos alunos eram senhoras que se dedicavam a cuidar da casa, marido, filhos e uma vez por semana vinham pintar “coisas alegres e bem feitinhas, decorativas”. Aos poucos esse perfil foi se modificando. Profissionais liberais em atividade que podem dispor de um mais turnos para um prazer muito particular, pintar aquilo que costumam ver nos museus europeus, impressionistas, arte moderna e contemporânea. Esta pessoa já não tem mais o compromisso de agradar ninguém da família, mas tão somente a si próprio. Os testemunhos dos alunos pra mim são fantásticos.

Um dia alguém perguntou para um aluno que esta aqui há mais de quinze anos:

Por que tu pintas há tanto tempo e para quê?

Estou me preparando para a minha velhice. ? respondeu.

Ele ainda esta aqui e já tem quase oitenta anos. Nunca faltou nem uma aula. Ouvi também:

Quando pinto não penso em mais nada que não seja a pintura, a cor, a forma, o faz e refaz. As horas passam e não lembro do celular e nem do computador.

A pintura tirou o meu tédio e minha ansiedade.

Posso, afirmar sem medo, que a pintura salva. Não cura, mas salva. Não só a pintura mas qualquer forma de expressão ligada a criação.

Também ouvi recentemente o seguinte:

Quando estou aqui pintando, não penso nos meus problemas, não dá tempo, não vejo o tempo passar nem quem esta na sala. Sinto uma felicidade incomum.

Existe outro componente muito importante que é o convívio de um grupo que só se encontra no atelier. Uma vez por semana durante um ou dois anos, as vezes bem mais.

Aqui ocorrem vários fenômenos. As pessoas podem falar mais livremente sobre suas experiências e vivencias do dia a dia sem que tenham medo de que o assunto crie pernas, afinal o assunto só interessa para aquele grupo naquela hora. Novas amizades que já perfazem anos. E é por isso que na maioria dos casos as pessoas preferem pintar só no atelier.

Mas muitos já têm em casa seus estúdios. Tenho uma aluna que borda compulsivamente com retalhos de panos e linhas coloridas, pedrarias. Ela disse:

O que me salvou de não enlouquecer com a perda um familiar foi bordar e pintar sem parar. Hoje estou bem melhor. Quando estou no atelier me sinto alegre e até engraçada.

Penso também que o bom humor vai depender um pouco de quem está na dianteira. Eu tenho por princípio manter o meu bom humor e alegria com meus alunos. Ninguém vem aqui para me ver reclamar da vida, dos preços, das minhas chatices. Procuro ser gentil e atenciosa com todos – nem sempre consigo, mas cuido para manter o bom astral. A artesania, o fazer com as mãos e tudo de que falei ajuda a salvar, mas não cura.

Confira a entrevista no Donna aqui