Ninguém ensina ninguém a ser artista.

Conheci Iberê em 1980. Ele voltara a morar em Porto Alegre, vindo do Rio de Janeiro, com uma mostra na Galeria do Centro Comercial Azenha. Naquela época eu não conhecia de perto sua pintura. Passei em frente a galeria e me deparei com uma tela grande, escura e muito dramática. Pensei: não gosto, vou embora. Andei uns metros, voltei. Parei novamente, olhando a tela através do vidro e novamente meus pensamentos eram de como alguém pode pensar algo assim, pintar assim, eu não teria esta tela em minha casa, ou teria? Olhei para dentro da galeria, com pouca gente, num pequeno espaço expositivo bem acolhedor. Entro, não entro, entro, só pra ver a tela sem o vidro e ter certeza de que não gosto. Entrei, pensei, mas quem é esse pintor que de tão forte e corajoso me provoca tanta sensação de desconforto, mas ao mesmo tempo não consigo parar de olhar. Não tive dúvida, perguntei: Quem é o pintor? E um senhor alto, atencioso e muito gentil se aproximou e disse: Sou eu. Ah, desculpe, eu posso ser franca? – Claro. – Não gosto da sua pintura, me aflige muito.

carta
Carta de Iberê: “Querida Elizethe, já estás matriculada como aluna vitalícia. Muito carinho, Iberê.”

E ele do alto de sua extrema gentileza disse: Nem eu, acabo de encontrar uma pessoa sincera.

Grande homem, grande mestre, um pintor internacional.

Durante alguns anos convivi como aluna e assistente do Iberê e amiga de Maria Camargo, por quem tenho profunda estima e admiração.

A grande lição que tive naquela noite em 1980 foi: Não se pode julgar um artista por uma obra, é preciso ver a obra toda, do inicio ao fim. No caso específico de Iberê, conhecer o processo criativo é fundamental. Talvez eu tenha apreendido a pintar só olhando seu processo único e genuíno.

Iberê trabalhava, dia e noite na mesma tela, dezenas de telas, quantidades de tinta de altíssima qualidade, tubos e mais tubos, raspados e jogados sem piedade no lixo. Recomeçava. Mais tinta, mais esforço físico e mental, e lá ia novamente o artesão obcecado na busca incansável da forma.

É comum perguntar a um artista como se deu seu aprendizado, e quem foram seus “mestres”. No meu caso tive alguns bons e grandes mestres. Dois deles brasileiros: litogravura e aquarela estudei com Danúbio Gonçalves. Desenho e pintura com Iberê Camargo, e por falar em Iberê, é bom citar um trecho do livro de Lisette Lagnado “Conversações com Iberê Camargo” onde ele mesmo responde a essa famosa pergunta na página 21:

– Meu aprendizado não se fez apenas através de cópias de grandes mestres. Embora não tenha – graças a Deus! – cursado uma academia de arte, na juventude frequentei ateliês de mestres, na Europa. O conhecimento, uma sólida cultura plástica como a entendo, jamais poderá sufocar a originalidade de um artista, se ele realmente a tem. Conheci em Paris, um escultor brasileiro, bolsista, que não frequentava museus para não perder a personalidade, esquecendo, talvez, que só se perde o que se tem. Mo Museu do Prado, encontram-se, lado a lado, cópias e originais de mestres: Delacroix après Rubens; après Tiziano. Cézanne estudava os velhos mestres. A sua meta era refaire Poussin sur nature.”