CARTOGRAFIA MISSIONEIRA
por Paulo Amaral

Há na iconografia missioneira um anjo de olhar sereno, o braço recolhido junto ao corpo e o indicador apontando profeticamente para o céu. Esta imagem, que Lou sonha amiúde, preside o ambiente de seu atelier transformado em laboratório de memórias quase irresgatáveis. É possível que sua pesquisa venha a cumprir o dever, há muito adiado por nossa impaciência ou por nosso temor ao desafio, de mergulharmos nas brumas das reduções jesuíticas para delas extrairmos novos mistérios. Corremos sempre o risco de nada descobrir. É também viável que a partir deste trabalho tão rico e intenso possa o artista reunificar, recompor ou relacionar entre si imagens mutiladas pela insensatez da ira iconoclasta. Arremeter-se a essa empresa é como jogar-se de cabeça ao fundo de um poço escuro em que apenas acreditamos existir água, e implica fazê-lo com medo e coragem, com raiva e paixão, com sonho e desesperança e com todos os sentimentos aparentemente contraditórios de uma alma inquieta e instigadora.

Lou é uma artista maior, possuindo, portanto, esta alma que a seduz ao mergulho. No ambiente em que recebe, vamos passando um a um os seus trabalhos, desenhados, pintados e – por que não? – esculpidos sobre os mais diversos suportes como papel, ferro, tela, tijolos… Percebo-me diante de uma obra que dispensa a crítica, porque, antes, arrebata o espectador com gritos de sentimentos de verdade.

Pergunto a Lou se ela teria se demandado, no instante mais íntimo da criação, aquele em que o homem e obra compõe um ser único, pergunto-lhes se em algum instante assim ela teria dito a sí mesma “a arte me basta”. Ela me revela o alto preço pago a cada vez em que se propõe a desenhar limites entre dúvida e certeza, extremos não tão patentes em sua obra fundamentada pela pesquisa, onde tantas vezes o acerto é a consequencia prática do erro. No sonho de Lou inexistem relações lineares de pensamento, tudo está por acontecer. Encanta-me sua belíssima obra de unidade, acabada, madura… Correndo os olhos por seu atelier luminoso, impregnado de incenso oriental e de música de Rachmaninoff, onde pontificam o anjo de dedo para cima, o Menino Deus Indígena, a Virgem Maria e o Senhor Crucificado, descubro imagens douradas do barroco, fragmentos de cartas, de memórias e dores plasmados a partir de técnicas diversas que a artista domina com maestria de quem deve ouvir-se confessando a sí mesmo “sim, a arte me basta”.

Paulo Amaral – Diretor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli)
para a exposição Cartografia missioneira, no Espaço Cultural Yázigi Sonilton Alves, Porto Alegre, em 1998.

MISSION CARTOGRAPHY Paulo Amaral

Mission iconography includes an angel with a serene smile, arm withdrawn close to the body and the finger pointing prophetically to the heavens. This image, which Elizethe often dreams of, rules over the atmosphere of her studio, transforming it into a laboratory of almost unrecoverable memories. It may be that her research will fulfill the need, often delayed by our impatience or fear of challenge, of delving into the mists of the Jesuit missions to be able to extract new mysteries from them. We always run the risk of finding nothing. It is also likely that this rich and intense work may enable the artist to reunite, recompose or relate together the images mutilated by the insensitivity of iconoclastic rage. Attacking this enterprise is like throwing oneself headfirst into a dark well in which we only believe there may be water, and it means doing it with fear and courage, anger and passion, dreams and despair and all the apparently contradictory feelings of a restless and inspiring soul. Possessed of this soul which invites her to take the plunge, Elizethe is a greater artist. She welcomes us into an atmosphere where we pass her works one by one, drawn, painted and – why not? – sculpted on a wide variety of materials, like paper, iron, tiles, bricks… I find myself facing a work that defies criticism because it first of all captivates the spectator with cries of real feeling. I ask Elizethe if she could have asked, in the most intimate moment of creation, that moment when man and work become a single being, if at a moment like that she would have said to herself “art is enough for me”. She tells me of the high price paid each time she tries to define the limits between doubt and certainty, extremes not so patent in her work founded on research, where success is often a practical consequence of error. There are no linear thoughts in Elizethe’s dreams, anything can happen. I am captivated by her beautiful, finished, mature, individual work… Casting my eyes around the bright studio, impregnated with oriental incense and the music of Rachmaninoff, officiated over by the angel pointing heavenwards, the Indigenous Baby Jesus, the Virgin Mary and the Crucified Lord, I discover golden baroque images, fragments of letters, memories and pain, molded from the range of techniques the artist masters like someone confessing to themselves, “yes, art is enough for me”.

Text by Paulo Amaral (Director of the Rio Grande do Sul Ado Malagoli Museum of Art) for the Mission Cartography exhibition at Espaço Cultural Yázigi Sonilton Alves, Porto Alegre, in 1998.