ASSOCIAÇÃO LIVRE NA OBRA DE LOU BORGHETTI
Por Paulo C. Amaral

Parece mar a larga mancha cinza no terço maior inferior da tela. Surgiu de um gesto único, intenso e decidido, rasgado da esquerda para a direita. Não sabia a artista aonde ir. Depois foi sendo processada, sábia e lentamente, com a volúpia de quem goza todos os prazeres da técnica, de quem zomba deles, até parecer uma água densa, um leite plástico, quase sólido, sobre o qual foi apoiada a frágil escada em direção ao céu. E do primeiro plano, à direita desta escada, num outro gesto da criação surgiu a criança que, de costas para a tela, olha para o fundo desta, lá onde parece nascer uma cidade iluminada a anunciar a noite do futuro.
Mas não é densidade esta mancha, desde que, olhando para ela, um pouco mais acima, encontro outra, escura, que parece ser terra.

Esta sim é densa, é sólida. Sobre esta sim, poderia estar apoiada a escada infantil de pés puntiformes a desafiar a resistência da superfície do tempo. Uma escada lúdica, reduzida como se desejaria na vida tudo ser. E em verdade, olhando melhor, vêem-se muitas escadas mais neste breve espaço do horizonte do quadro que nos convida, em nome da artista, à associacão livre que, entretanto – lamentemos -, não é nossa, mas dela: uma casinha de madeira – Lou abomina casas de madeira ? ( talvez um incêndio… ) -, sem corpo, porque é transparente e escancarada. Não abriga, não acolhe e nem protege. Antes, afugenta e amedronta… Uma cadeira para descanso, desproporcional relativamente à própria casa que por sua vez é ainda menor que a pequena criança-gigante.

…Parece terra, sim, parece terra onde há indícios de outras casas sobre o horizonte, parecem lonas…quem sabe um circo que acabou de chegar à cidade, essas coisas que às crianças não fogem jamais, passagens que em nós são as únicas que restam como registros ou verdades.
Não dá bem para decifrar as manchas antigas como as de Tarquínia, apenas são nelas agora outras as figuras: uma menina, uma casinha vazia e uma cadeira, todas pintadas de uma cor primária.

O que habitava a mente de quem as desenhou há tanto ? O tempo, enfim, é outro, embora por nada possa mudar a razão atávica destes traços. As cores são quase as mesmas – as cores sempre foram as mesmas -, apenas os recursos são outros, e, a não ser para a artista, não importa a nós o que está aí nesta parte do quadro dividido em três campos horizontais cortados, dos quais o último parece ser o céu a que se deseja chegar. Parece céu esta última parte que se mistura à anterior, porque é de um claro intenso que devora a quem dele queira se aproximar, engole quem pensa adentrá-lo assim, sem menor licença, sem dizer a que veio, um céu claro, definido, róseo, mas – atenção ! -, enganoso. É preciso ter coragem ou ingenuidade para se chegar lá no fim do quadro onde esperam todas as armadilhas travestidas de doçuras. As escadas habitam toda a dimensão do quadro – vê-se agora -, unem as extremidades de cima e de baixo, ao menos numa sugestão, numa insinuação quase óbvia a quem deseja alcançar o topo. Mas nenhuma presunção é óbvia. Não é assim que o olhar de quem vê este quadro se dá o direito de pensar, de transgredir o ato da artista. O que pensaria ela ? Que reação teria ela quando se lhe tocassem restos diurnos que compuseram o sonho que quis ser eternizado nesta tela que somente muito mais tarde ela olhará, então sim, com atenção e detença, para compreender de vez o que foi feito de sua vida, o que lhe aconteceu durante a caminhada ? Vire-se o quadro, agora de cabeça para baixo. No segundo plano arde em chamas uma densa floresta escura, expelindo para cima a fumaça cinza volumosa do grande incêndio. No primeiro, sobre a água rósea, reflexos da queimada e algumas poucas árvores, apenas semelhantes a escadinhas que sobreviverão chamuscadas ao infeliz acidente. O fogo ainda arde com intensidade no centro do quadro onde predominam as chamas que antes eram criança, cadeira e casinha.

Parece um quadro esta peça a minha frente, mas não é um quadro. O que vejo, e o que minha vontade quer desvendar num inútil exercício de associação livre, são os componentes de uma longa trama secreta, que não é minha. Que sei que existe, mas que não posso conhecer. Que quer dizer algo, mas que não posso escutar. Un mistero chiuso in sè.
Parece mar, parece terra, parece céu…
Mas não é.

Paulo C. Amaral, novembro de 2006

FREE ASSOCIATION
IN THE WORK OF ELIZETHE BORGHETTI

It looks like sea…

That broad grey area in the lower third of the canvas looks like sea. It came from a single, intense, dedicated gesture, scraped from left to right. The artist did not know where to go. Then it slowly, knowingly proceeded, with the sensuousness of one who enjoys all the pleasures of the technique, who jests with them, until it seemed like a dense water, a kind of plastic milk, almost solid, supporting the fragile steps to the sky. And look deep into the foreground to the right of these steps and another gesture has produced the child with her back to the canvas, looking in to where what seems to be an illuminated city announces the night to come.

But this area is not density, since when you look at it there is another dark one a little higher, which seems to be earth.

This one is indeed dense, solid. The childish steps could be supported on this, with their pointed feet challenging the resistance of the surface of time. Playful steps, simplified as one would like everything in life to be. And in fact, looking closer, we can see many steps in this short space of the horizon of the picture which invites us, in the name of the artist into the free association which, however, – regretfully – is not ours, but hers: a wooden house – does Lou hate wooden houses? (a fire perhaps…) -, bodiless, because it is transparent and open. It provides no shelter, no welcome, no protection. But repels and alarms…A chair for relaxing, out of proportion to the house itself, which in turn is smaller than the little giant child.

…It looks like earth, indeed it looks like earth with indications of other houses on the horizon, they look like tarpaulins…perhaps a circus has just come to town, those things that children never run from, the only passages we have that remain as records or truths.

It is not easy to decipher ancient marks like those in Tarquinia, only now do other figures appear: a child, and empty house and a chair, all painted in a primary color.

What went through the minds of the people who drew them so long ago? After all, time is something else, although it can change the atavistic reason of these traces for nothing. The colors are almost the same – the colors were always the same -, just the resources are different, and if not for the artist it would not matter to us what is there in that part of the picture divided into three horizontal fields, of which the last seems to be the sky one wants to reach. That final part seems to be the sky, which is mixed with the previous one, because it is intensely pale and swallows up anyone wanting to approach it, anyone thinking of entering, without the slightest license, without invitation, a pale, defined, pinkish sky, but – take care! – misleading. You need to be brave or naïve to reach the end of the picture there, where all the traps are coated in sweetness. The steps run the whole length of picture – you can see now -, uniting top and bottom, in at least a suggestion, an almost obvious hint for anyone wanting to reach the top. But no assumption is obvious. That is not how the eye of the person looking at this picture is allowed to think, transgressing the act of the artist. What would she think? What would be her reaction to touching the daily remains that make up the dream wishing to be eternalized in this canvas that she will only look at much later, with care and attention, to understand at once what has been done with her life, what happened to it on the way? Turn to the canvas, now from the top to the bottom. In the middle ground of a dense forest burns in flames, emitting the thick grey smoke of a huge fire. On the pinkish water in the foreground, reflections of the burning and a few trees, only resembling the little steps that will survive the scorched accident. The fire is still burning intensely in the middle of the picture, where what were previously child, steps and house are now predominantly flames.

This piece I am looking at seems to be a picture, but it is not a picture. What I see and what I want to reveal is a useless exercise of free association, the components of a long, secret web which is not mine. Which I know exists, but I cannot discover. Which wants to say something, but which I cannot hear. Un mistero chiuso in sè.

It looks like sea, it looks like earth, it looks like sky…

But it isn’t.

Paulo C. Amaral

November 2006