CARTA A LOU BORGHETTI
Lya Luft

Amadíssima: você na sua generosidade aceitou que uma vez por semana eu fosse ao seu ateliê e você tentasse me ensinar a lidar com qualquer coisa; desenho, aquarela, tinta.

Para desestressar a cabeça, descansar a alma, soltar as asas, trocar o computador por outra ferramenta de vôo, sei lá. Depois de olhar e ler alguns livros belíssimos que você me emprestou, e escutar pouco atentamente suas explicações, arranjei um canto na minha casa onde passo algumas horas ouvindo Callas ou Mozart e fazendo alguns estranhíssimas aquarelas. Tudo erado, é claro, tudo fora de esquadro, e fora de qualquer mínima noção de técnica mais fundamental.

Mas esta esculhambada escritora decidiu que não quer aprender mais nada na vida, ou antes quer desaprender quase tudo. Aliás com literatura foi assim. Quando decidi não aprender nada, e desaprender o pouco que sabia, comecei a escrever. Claro que com pintura não vai ser assim, de modo que amais pintarei de verdade. Mas estou brincando de fazer umas aquarelas horrendas, cujos títulos, no verso, são lindos. Penso fazer um dia uma exposição: Versos de Aquarelas de Lya Luft – todas viradas para parede. As pessoas vão passar e ler apenas os títulos: Flores perplexas ao sol; Neurose vegetal; Rosas ou couves; Ascensão azul.

Estou adorando assim. Minha filha acha que sou louca, “Mas, mãe, não vais aprender nenhuma técnica, nada?” Nada. Um dia, quem sabe. De momento estou cansada demais. Porém a vida está andando, passei um lindo fim de semana em Gramado, minhas netas gêmeas ainda me chamam de Fofó porque “V” está difícil, a capa de meu livro novo sai num tom de vermelho bonito que me alegrou a alma, e penso em algum fim de semana em Torres, que apesar do barulho de que todo mundo se queixa para mim jamais perderá a magia daquele mar visto de alto do Farol.

Qualquer dia eu ligo e passo a amanhã aí, porque sua vitalidade, sua generosidade, e o clima ao seu redor são para mim como aquele “gole de água fresca bebido no escuro” (era assim mesmo, e é do Mario Quintana). E ouvirei suas explicações, mas possivelmente meio desatenta, porque estarei, como sempre, fixada em algum daqueles seus maravilhosos quadros espalhados pelo seu ateliê, em dos quais, aliás, ilumina aqui a minha sala.

Lya Luft
Fevereiro/2004

Texto em inglês